Voluntário tem que se qualificar

A pessoa voluntária deve refletir sobre a importância de ela participar na construção de um mundo mais justo. A pessoa tem que querer colocar os seus talentos à disposição da humanidade. Outra coisa fundamental é o voluntário se qualificar para a função que vai exercer, porque tem que saber fazer aquilo que deve fazer.”
Zilda Arns Neumann, de 68 anos, é uma médica pediatra nascida em Forquilhinha, no interior de Santa Catarina. Fundadora da Pastoral da Criança, ela leva cuidados todos os meses a 1,6 milhão de crianças carentes, 1,1 milhão de famílias pobres, quase 77 mil gestantes em 3.555 municípios de todos os 27 estados do país, cobrindo 64% das cidades brasileiras. Zilda Arns espalhou seu ideal pelo Brasil e conta hoje com mais de 155 mil voluntários que ajudam as famílias a combater a desnutrição, a mortalidade infantil e a violência familiar.

Com um trabalho silencioso, a Pastoral da Criança conseguiu reduzir pela metade em relação à média nacional a mortalidade infantil e a desnutrição das famílias que os voluntários acompanham. Pelos cálculos da entidade, cerca de 5 mil crianças deixam de morrer por ano no Brasil devido à iniciativa de Zilda Arns. No mundo, a Pastoral da Criança já alcançou 14 países da América Latina, Ásia e África.

Com toda essa experiência, a pediatra Zilda Arns ensina quem quer ajudar. “É fundamental o voluntário se qualificar para o trabalho que vai fazer”, lembra. “Tem que ser fiel à instituição, porque a entidade precisa poder contar com ele”, cobra. Pode parecer desestimulante, mas ela garante que o voluntário tem sua recompensa: “a satisfação é muito maior que sacrifício que se faz”, garante.

Ela mesma faz essa conta sempre, já que diariamente renuncia a desejos pessoais, ao comodismo e em parte a sua própria família. “Às vezes tenho vontade de ir para minha casa de praia no fim de semana, para ler sossegada. Nessas horas tenho que lembrar que há quatro ou cinco mil pessoas me esperando, então viajo para vê-las e para compartilhar a experiência da Pastoral. Penso sempre: o que tem mais valor para mim? Dar alegria para os outros ou ficar sossegada na praia? Não tenho dúvida de que é ajudar os outros.”

Tanta abnegação já rendeu a Zilda Arns vários prêmios e o último foi o de “heroína de Saúde Pública das Américas”, que recebeu em Washington no começo deste mês. A Pastoral da Criança também é mundialmente reconhecida e foi indicada duas vezes para o Prêmio Nobel da Paz.

A experiência reconhecida credencia a fundadora da Pastoral a discutir e propor políticas públicas para o país. Na análise do programa “Fome Zero”, uma das bandeiras do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, ela deixa claro que “precisa que tomar cuidado com paternalismo” e que “ainda vai aterrissar na realidade”.

Se Zilda Arns tem muito a ensinar para qualquer governo, seu casamento com a Pastoral também deixa uma lição para os que esperam que o poder público resolva os problemas do país: comece a agir, porque você mesmo pode transformar o mundo. Ela transformou.

Último Segundo – Como a senhora orienta uma pessoa que quer ser voluntária?
Zilda Arns – A pessoa voluntária deve refletir sobre a importância de ela participar na construção de um mundo mais justo. A pessoa tem que querer colocar os seus talentos à disposição da humanidade. Outra coisa fundamental é o voluntário se qualificar para a função que vai exercer, porque tem que saber fazer aquilo que deve fazer. Eu aconselharia também a conhecer muito profundamente os objetivos da instituição e acompanhar de perto os resultados do trabalho. Tudo isso não é suficiente: o voluntário tem que ser responsável e fiel à instituição, porque a entidade precisa poder contar com ele.

US – É muito comum um voluntário desanimar? O que ele deve fazer nesse caso?
Zilda Arns – O voluntário tem que ser paciente com ele mesmo. Muitas vezes ele não consegue fazer tudo ao mesmo tempo. Na Pastoral, a pessoa demora uns dois anos para conseguir sentir o cheiro do trabalho e criar a cultura do voluntariado. Ela ajuda os outros e é ajudada, mas só sente o enriquecimento pessoal depois de um bom tempo. Então sempre recomendo que o voluntário não desista no começo, porque depois ele se apaixona e não quer mais largar.

US – A senhora já pensou em largar o trabalho?
Zilda Arns – Eu nunca tive vontade de desistir. Sempre acreditei no que estava fazendo. Na época em que começamos a implantar a Pastoral sentimos muita resistência dentro e fora da Igreja. Dentro, diziam que não era o trabalho da Igreja pesar crianças. O pessoal da esquerda dizia que deveríamos exigir que o combate à desnutrição infantil fosse feito através dos serviços públicos. Por exemplo, em vez de ensinar a fazer soro caseiro, queriam exigir água de boa qualidade. Eu me sentia no fogo cruzado. Em uma noite, me veio à cabeça: ‘não consigo agradar ninguém’. Então questionei: ‘mas eu estou no caminho certo?’. A resposta era clara: ‘sim, porque o que as mães mais precisam é aprender a cuidar dos filhos e se não houver um trabalho que envolva a comunidade isso não vai acontecer’. Os resultados da primeira experiência também mostraram que estávamos no caminho certo: antes de implantarmos a Pastoral em uma comunidade, morriam 127 crianças a cada mil que nasciam vivas. Um ano depois diminuímos a mortalidade para 28 a cada mil nascidas. Hoje temos 7 mil equipes de capacitação com no mínimo 3 pessoas por equipe, o que soma 20 mil voluntários só para treinar e orientar as pessoas que trabalham nas comunidades. Em todo o Brasil, calculamos que haja mais de 155 mil voluntários na Pastoral. Não existe nada tão grande quanto a Pastoral no mundo todo.

US – O que difere a Pastoral então para ela ter tomado essa proporção?
Zilda Arns – O segredo é que a Pastoral envolveu os voluntários pobres. A maioria das pessoas que trabalham como voluntários mora nos bolsões de pobreza e assumiu a responsabilidade de resolver os problemas do seu meio. Isso é fundamental para formar uma rede: a pessoa vê o resultado do seu trabalho até dentro de casa.

US – Qual a diferença do voluntariado da classe média?
Zilda Arns – A classe média vai fazer o trabalho voluntário de carro, por exemplo. Tem que sair de casa, andar um pedaço, trabalhar e depois voltar. Depende de disponibilidade, de dinheiro para gasolina, de programação, de horários e precisa de força de vontade. A classe pobre está com a massa na mão porque já mora no lugar e não gasta nada para estar lá.

US – E como são medidos os resultados?
Zilda Arns – Conseguimos organizar o melhor e mais rápido sistema de informação de saúde e organização comunitária do mundo. Hoje, por exemplo, já temos o resultado do terceiro trimestre do ano. Conseguimos detectar rapidamente os municípios e as comunidades que estão com problemas e fazer o plano para saná-los. É ágil tanto para a informação que vem quanto para as ações que retornam.

US – A senhora ainda vai às comunidades?
Zilda Arns – Ah, me faltam os dons de Santo Antonio de Pádua: ele podia estar em dois lugares na mesma hora. Sinto muita falta disso. Sou muito chamada para discutir políticas públicas, principalmente em momentos de decisão. Nos três primeiros anos da Pastoral eu cuidava de praticamente tudo e eu treinava os lideres das comunidades. Quando fizemos um convênio com Ministério da Saúde, consegui contratar uma secretária e um contador, então não tinha mais que fazer a parte burocrática. Mas a Pastoral crescia muito e eu comecei a treinar os coordenadores dos líderes, porque não dava mais conta de ir a todas as comunidades e me deslocar pelo país todo. Mas ainda faço as visitas pastorais nas comunidades para conversar com as pessoas e ter um retorno mais humano das nossas ações. Esse contato é o que me dá mais alegria.

US – A senhora é considerada uma referência em políticas públicas. Tem sido muito consultada nessa área?
Zilda Arns – Sim, fico muito ocupada com isso. Sou do Conselho Nacional de Saúde da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), participo da formulação de políticas que envolvam os índios, vou aos cerca de oito encontros regionais da Pastoral por ano, à assembléia geral da Pastoral, à assembléia dos bispos em Itaici, sou do conselho permanente da Igreja e sempre tenho que ir a reuniões importantes, tanto da Igreja quanto de formulação de políticas públicas. Neste ano minha agenda esteve ainda mais cheia porque recebi diversos prêmios nacionais e internacionais – e tinha que comparecer às cerimônias.

US – A Pastoral foi indicada por dois anos consecutivos ao Prêmio Nobel da Paz. Em 2001, o escolhido foi secretário geral da ONU, Kofi Annan, e em 2002 o prêmio ficou para o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter. A senhora ficou decepcionada em não ter sido premiada?
Zilda Arns – O Prêmio Nobel é importante, mas minha recompensa pelo trabalho está em que se salve a vida das crianças Não fiquei decepcionada, mas claro que US$ 1 milhão ajudaria a ampliar o trabalho da Pastoral.

US – A senhora considera que teve apoio suficiente do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso para o trabalho da Pastoral?
Zilda Arns – Acho que governo FHC só vai ser reconhecido daqui a alguns anos. Ele deu muito valor a entidades não governamentais. Eu mesma senti na pele a diferença de tratamento em relação aos anteriores. Antes, quando precisava de ajuda ou verba para a Pastoral, eu tinha que pedir, esperar, ficava sem resposta… Depois que entrou o Fernando Henrique senti que queriam que a Pastoral fosse para frente.

US – Quanto do orçamento da entidade é composto de verbas federais?
Zilda Arns – O Ministério da Saúde me ajuda a treinar as lideranças e paga 73% dos nossos custos.

US – A senhora considera a Pastoral dependente do governo?
Zilda Arns – A sociedade tem que ser ajudada pelo governo, mas não pode ser cooptada. O Ministério da Saúde me ajuda, mas uso as minhas estratégias, tenho autonomia para fazer meu trabalho e posso criticar o governo. Não posso estar em uma situação de dependência que coloque em risco minhas opiniões.

US – Como a senhora conseguiu essa liberdade?
Zilda Arns – O governo sabe que se tivesse que custear um programa semelhante ele teria de três a vinte vezes mais gastos que a Pastoral. Nós trabalhamos com voluntários, é um serviço muito mais barato que contratar profissionais de saúde e pagar seus deslocamentos até as comunidades.

US – A senhora acredita que a Pastoral corre risco com a mudança de gestão na presidência?
Zilda Arns – Nós precisamos do governo e temos certeza de que nenhum vai deixar de apoiar a Pastoral. Seria uma tolice enorme, porque nenhum governo, por mais que queira, não vai dar conta do recado. E não adianta pensar que só dinheiro resolve. Precisa estar no local, entrar e envolver as comunidades.

US – O que a senhora achou dos projetos do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva para a área social? O modelo de assistência adotado pelo “Fome Zero”, por exemplo, é correto?
Zilda Arns – Há modelos de assistência social que são paternalistas, que apenas dão comida. São ainda piores quando envolvem a distribuição de cestas básicas, porque viram alvo de corruptos e servem para compra de votos. No programa do Lula a família recebe dinheiro e pode comprar no mercado o que realmente precisa. Isso é bom, mas ainda precisa ser aprimorado e tem que tomar cuidado com paternalismo. Não basta comida, precisa identificar cada um que receber o benefício, dar um tratamento individual, ver suas necessidades, ensinar a ler, a escrever, ensinar um ofício. Só dar alimento desestimula a pessoa a conquistar seu espaço. Acho que o ‘Fome Zero’ ainda vai aterrissar na realidade e ver que precisa ser centrado na promoção humana, precisa ensinar a pescar em vez de apenas dar o peixe.

US – Seria a mesma coisa que apenas dar esmola nos faróis. A senhora dá esmola?
Zilda Arns – Antigamente, há uns 15 anos, eu dava dinheiro para crianças no farol. Hoje não dou mais porque estaria estimulando uma coisa errada. A criança que pede esmola ganha R$ 300 por mês e percebe que não ganharia isso como operária, por exemplo, então não estuda e depois cai na marginalidade. E, pior, as crianças muitas vezes são exploradas por adultos que ganham dinheiro através delas. Eu acho errado dar esmola nas ruas.

US – E o que a pessoa que dá dinheiro nos faróis deveria fazer?
Zilda Arns Se quiser doar, procure uma instituição que tenha um trabalho sério, em vez de dar dinheiro no farol. Não precisa ser voluntário para ajudar: se não quiser trabalhar, financie essas ações.

US – O ano passado foi o Ano do Voluntariado. A senhora acredita que a população tenha despertado e se mobilizado para esse tipo de trabalho?
Zilda Arns – Foi bom 2001 ter sido o ano do Voluntariado porque no mundo inteiro o assunto ficou muito em evidência. No Brasil havia algumas ações, mas os trabalhos ou eram em menor escala ou não apareciam. De repente, com esse espaço de discussão, tudo se tornou mais visível. Acho que a população respondeu, porque tivemos milhares de voluntários a mais na pastoral.

US – Houve algum ganho permanente ou essa mobilização se encerrou naquele ano?
Zilda Arns – O grande ganho foi que a rede de voluntariado se organizou no Brasil. Muitas pessoas têm potencial, querem participar e não sabem onde. Agora há centros de voluntariados em todo o país que fizeram bancos de dados com as informações organizadas. Os que querem ser voluntários têm como procurar as entidades que precisam do trabalho.

US – E o que ainda falta para o voluntariado no Brasil?
Zilda Arns – O que ainda não é muito costume no Brasil é um sistema de capacitação dos voluntários e um sistema de informação para acompanhamento dos resultados. O voluntário tem que saber o que fazer e precisa ver o resultado do seu trabalho para se sentir estimulado.

US – Como identificar as entidades que desenvolvem trabalhos sérios?
Zilda Arns – Existem instituições com grande credibilidade e é relativamente fácil de perceber, porque os frutos não caem longe da árvore. Ou seja, os resultados dos trabalhos têm que aparecer e a entidade tem que prestar contas.

US – Não há dúvidas de que a senhora tem vocação e parece pensar apenas nos outros e no bem da humanidade. Nenhuma vez se arrependeu de ter feito uma escolha em detrimento de sua vida pessoal?
Zilda Arns – Ao mesmo tempo em que se faz uma opção se faz uma renúncia. Quando opto, penso nas conseqüências dessa escolha. Sempre preferi ajudar os outros e isso não é um sacrifício para mim. Hoje tenho que pensar nos meus netos, que às vezes esperam dois meses para fazer uma festinha de aniversário para que eu possa ir. Em outros momentos quero ir para a minha casa da praia no fim de semana, para ler sossegada, porque gosto muito de ler. Nessas horas tenho que lembrar que há quatro ou cinco mil pessoas me esperando, então viajo para vê-las e para compartilhar a experiência da Pastoral. Penso sempre: o que tem mais valor para mim? Dar alegria para os outros ou ficar sossegada na praia? Não tenho dúvida de que é ajudar os outros.

US – Nem todo mundo tem essa disposição e essa entrega da senhora. Ainda assim pode ser um bom voluntário?
Zilda Arns – Cada um faz o que pode. Alguns ajudam todos os dias, outros só podem uma tarde por semana. O importante é ser fiel, porque a instituição tem que poder contar com o voluntário. A pessoa acaba se engajando e depois de um tempo percebe que não apenas dá, mas recebe muito mais. A satisfação é muito maior que sacrifício que se faz.

US – A senhora tem algum sonho não realizado?
Zilda Arns – Eu vivi a vida em plenitude, o que não quer dizer que não tenha tido sofrimentos. Perdi meu marido, meus pais, mas estou muito feliz com a minha família, tenho cinco filhos e oito netos. Profissionalmente me sinto plenamente realizada. Meu sonho é que todas as mães saibam cuidar dos seus filhos e que todos despertem para importância de tratar bem as crianças para haver paz no mundo.

US – Ainda falta muita informação para as mães?
Zilda Arns – Infelizmente sim. Em 1986, por exemplo, fui montar a Pastoral em uma comunidade no Maranhão chamada Macabau. Conversei com umas mulheres que moravam à beira do Rio São Francisco, em casinhas de barro, muito pobres e perguntei quantos filhos tinham. A dona Rita – nunca vou me esquecer dessa mulher – disse que tinha sete filhos, mas cinco haviam morrido. Comecei a falar então sobre como os filhos nascem, falei de amamentação, de como cuidar das crianças… No final, dona Rita me convidou para visitá-la. Entrei na casa de barro, ela trepou em um pé de jaca, me deu a mais bonita para agradecer pela palestra. Ela me disse: ‘gostei muito porque a senhora explicou de onde vêm os filhos’. Eu perguntei de onde ela achava que vinham e ela me contou que pensava que ficava grávida quando, em dia de lua cheia, lavava roupa no rio São Francisco. No Brasil todo ainda há histórias assim.

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